Na contramão do feminismo carcerário e punitivista, a cientista política Françoise Vergès, autora de Um feminismo decolonial (Ubu Editora, 2020), propõe uma crítica do recurso à polícia e à judicialização dos problemas sociais, e pergunta: como podemos proteger as populações vulneráveis – incluindo mulheres, migrantes, pessoas pobres e racializadas, minorias trans e queer – sem recorrer ao sistema penal que foi concebido justamente para criminalizá-las? Sua análise não apresenta soluções prontas para acabar com as violências de gênero e sexuais, mas visa contribuir para a reflexão sobre a violência como componente estruturante do patriarcado e do capitalismo, e não como uma especificidade masculina. A autora defende uma despatriarcalização e uma decolonização da proteção, uma alternativa ao securitarismo patriarcal e estatal; uma política inspirada em experiências de comunidades, grupos militantes e profissionais da saúde, direito e educação engajados no campo da proteção. Afirmar que os mecanismos estatais e neoliberais de segurança são racializados não implica negar que as mulheres brancas e das classes burguesas também estejam sujeitas a espancamentos, estupros e assassinatos; implica dizer que interrogar a proteção pelo viés da classe, da raça e da heteronormatividade amplia o campo de ação. Vergès ainda busca responder aos seguintes questionamentos: quais são os fundamentos do feminismo carcerário? Por que a proteção das meninas e mulheres se tornou um argumento que permite reforçar o campo de ação da polícia e do judiciário? De que modo a proteção de umas serve ao objetivo de atacar outras? Quem são essas “outras” que o Estado patriarcal considera legítimo atacar – e como elas se defendem desses constantes ataques?
Sobre a autora:
Cientista política, historiadora, ativista e especialista em estudos pós-coloniais. Vergès cresceu na ilha da Reunião (França), e morou na Argélia, no México, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Graduou-se em ciência política e estudos feministas na San Diego State University (1989). PhD em teoria política pela University of California de Berkeley (1995), publicou sua tese Monsters and Revolutionaries: Colonial Family Romance and Métissage [Monstros e revolucionários: o romance da família colonial e mestiçagem] pela Duke University Press (1999). Lecionou na Sussex University e na Goldsmiths College, ambas na Inglaterra. Entre 2014 e 2018 foi titular da cátedra Global South(s) no Collège d'Études Mondiales da Fondation Maison des Sciences de l’Homme. Publicou diversos artigos sobre Frantz Fanon, Aimé Césaire, abolicionismo, colonialismo, pós-colonialismo, psiquiatria, memória da escravidão, processos de creolização no Oceano Índico e novas formas de colonização e racialização. É autora de documentários sobre Maryse Condé e Aimé Césaire. Colabora regularmente com artistas, como no workshop Mapping of the Post-Colonial Space [Cartografia do espaço pós-colonial]. Trabalhou como curadora de projetos da Documenta11 (2002) e da Paris Triennale (2012). Como curadora independente, organizou o projeto de visitas guiadas “O escravo no Louvre: uma humanidade invisível” (Museu do Louvre, 2013) e as exposições "Dez mulheres poderosas" (2013) e "Haiti, medo dos opressores, esperança dos oprimidos" (2014) para o Mémorial de l'Abolition de l'Esclavage em Nantes [Memorial da abolição da escravidão].
Doutorou-se na Universidade de São Paulo (USP, 2014), na qual obteve os títulos de bacharelado(2005) e de licenciatura em Ciências Sociais(2006) e também de mestre em Sociologia(2009). Durante o estágio doutoral, foi Visiting Student Researcher Collaborator em Princeton University, com bolsa Sanduíche da FAPESP (2013).Integrou o quadro docente da Universidade Federal de Goiás(2016-2017) onde coordenou o PIBID-Ciências Sociais. Atualmente, é professora adjunta da Universidade Federal Fluminense(UFF), coordenadora do curso de licenciatura em ciências sociais da referida instituição, coordenadora do Grupo de estudos e Pesquisa Guerreiro Ramos (NEGRA) e integra o programa de pós-graduação em sociologia. Atuou no comitê científico do Latin American Anti-racism in a 'Post-Racial' Age ( LAPORA, 2017-2018), é associada ao projeto Race and Citizenship in the America e integra o projeto " Vozes do Genocídio da Juventude Negra" (CNPq/2019). Tem experiência na área de Sociologia Política e da Cultura, com ênfase nos estudos sobre ação coletiva, teorias interseccionais, relações raciais e de gênero, educação e políticas de ações afirmativas no ensino superior.
Uma teoria feminista da violência
- Autora : Françoise Vergès
- Editora : Ubu Editora; 1ª edição (27 setembro 2021)
- Idioma : Português
- Capa comum : 160 páginas
- ISBN-10 : 6586497620
- ISBN-13 : 978-6586497625
- Dimensões : 13.3 x 0.9 x 21 cm
- Peso : 0,34 kg

